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A financeirização do capitalismo e a indústria 4.0

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O sistema de capitalismo financeirizado foi o fio condutor da palestra de Renato Rabelo sobre Indústria 4.0, ou quarta Revolução Industrial, no auditório do Sindicato dos Metalúrgicos de Caxias do Sul e Região na noite de sexta-feira.

Antes de discorrer sobre o tema, Rabelo, que também presidente da Fundação Maurício Grabois, fez um passeio na História, passando pela primeira revolução industrial em 1.760, quando o trabalho de artesões deu espaço para as máquinas. Ele relembrou ainda que a denominação Indústria 4.0 surgiu na Alemanha há cerca de dois anos, país que adotou um plano para se preparar para as mudanças tecnológicas, com grandes avanços, mas sem chegar ainda à plenitude dessas transformações, com a máquina conectada a toda a cadeia produtiva. A China, que disputa com os EUA, a liderança na tecnologia 5G também foi destacada por ele

“Não acho que essas máquinas vão suplantar a nossa inteligência humana. A possibilidade de suplementar a inteligência humana fica no campo da ficção. O capitalismo contemporâneo, por exemplo, surge com os chamados tempos dourados pós Segunda Guerra Mundial, que foi originada em conseqüência da crise de 1929 e 1930.”

Seguindo nesta linha de raciocínio, Rabelo destacou ainda que foi na década de 70 que o capital passou a ser livre e, com essa desregulamentação, passamos a vivenciar o capitalismo financeirizado, que subordina o Estado e sua dívida aos bancos. Ou seja, os bancos ganham, sem qualquer esforço, sobre as dívidas dos governos

“Marx previu essa etapa de financeirização bancária ao estudar a dinâmica do capitalismo. A financeirização é o pólo predominante hoje. O que valoriza o capital? O trabalho humano. A força da compra do trabalho humano é o que Marx chama de mais valia.”

Essa leitura se deu no contexto de mostrar que o capital está entrelaçado com a máquina, visando dinheiro, o lucro, sem valorizar a mercadoria força de trabalho. Ou seja, paga menos para o trabalhador para ganhar mais em cima de um capital fictício.

“Isso vai chegar a uma bolha Chega um ponto que ele se distancia da realidade e explode como a crise de 2008, da qual ainda não saímos Essa tecnologia da vem a serviço da financeirização do capital Ela (a Indústria 4.0) já poderia estar sendo investida na produção. Com isso, os mais fracos são liberados do trabalho. Sofrem ameaça de desemprego, da crescente precariedade, queda de salários, retrato do que temos hoje com a o trabalho intermitente e a uberização com os serviços de aplicativos. Vai formando essa classe dos excluídos”, pontuou Rabelo.

Segundo ele, os rápidos avanços tecnológicos provocam fortes impactos com maior concentração de capital, provocando a falência ou fechamento de empresas pequenas e médias.

“Essa financeirização do capitalismo leva á desigualdade social. A chamada quarta Revolução Industrial, com mix tecnológico, vai cortar milhões de postos de trabalho, segundo relatório apresentado pela a entidade organizadora do Fórum Mundial de Davos. É a substituição do trabalho pela automação”, exemplificou.

O Brasil, complementa Rabelo, está muito atrasado na marcha da revolução 4.0. O nosso país se desindustrializou, e o avanço tecnológico não pode ser barrado

“O que temos de discutir é como essa tecnologia a favor de quem e a serviço de quem. A quarta revolução tem de estar a serviço da sociedade para que aproveite toda essa tecnologia A crise de 2008 se meteu num processo de capitalismo financeirizado, com grande endividamento do Estado, empresas e famílias, com tendência persistente de recessão, queda do poder aquisitivo dos trabalhadores, grandes somas de capital fora da produção e hipertrofia da esfera financeira.”

Aliado a isso, emendou o palestrante, temos a crescente guerra comercial, produto da hegemonia mundial, com o declínio relativo da hegemonia dos EUA e a ascensão da China, que luta pelo predomínio da tecnologia moderna, o que caracteriza a crise do capitalismo estrutural.

Na opinião de Rabelo, a luta pela valorização do trabalho ocupa a centralidade.

“Precisamos lutar por um país que abra caminho para um modelo de outra sociedade, e aos sindicatos cabe interferir nos rumos da nova tecnologia e suas inovações.”

A luta estratégica pela redução da jornada de trabalho, reforçou, aproxima-se de uma modelo de sociedade superior ao capitalismo “Quando defendemos carga horária 12 horas semanais, por exemplo, é para que tenhamos condições de permitir o lazer ao trabalhador e a geração de mais emprego. Essa é uma sociedade que caminha para o socialismo e igualdade, e isso não é pouca coisa.”

Os sindicatos, diz Rabelo, deveriam atraírem o trabalhador digital como forma de organizá-los a fim de buscarem a o financiamento sindical. A questão essencial para isso estaria na comunicação.

“A comunicação é disseminada hoje, mas a informação é monopolizada. Investir na tecnologia da comunicação é decisivo neste processo de modernização da quarta revolução industrial.”

E para finalizar sua explanação, Rabelo defendeu um projeto de país soberano, autônomo e próprio, sem esconder a sua decepção para os rumos que o Brasil vem tomando com a eleição do presidente Jair Bolsonaro.

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Assis Melo, agradeceu a disposição do conferencista e reforçou:

“Esse debate é da nossa perspectiva e de fundamental importância para que possamos compreender a nossa luta no dia-a-dia com o avanço da revolução tecnológica.”