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As ‘fake news’ como causa e consequência da radicalização política

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Boatos se travestem de “notícias” para parecer verdade no momento em que a imprensa tradicional passa por uma crise de credibilidade

 

O impacto das notícias falsas – ou fake news – e seus impactos nas discussões políticas foi tema do primeiro debate do seminário Na Encruzilhada da Democracia, realizado pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), que começou nesta segunda-feira (24). O termo, consolidado durante a cobertura das últimas eleições presidenciais dos Estados Unidos, se popularizou, inclusive provocando iniciativas de veículos da mídia tradicional como a formação de agências de checagem.

Para o professor de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP) Pablo Ortellado, a própria definição do termo ainda é polêmica. São fake news tudo aquilo que contribui para a desinformação ou o que é factualmente falso? Uma falha de apuração pode ser considerada como tal ou só aquilo que é deliberadamente enganoso?

Para ele, o processo de disseminação atual de informações falsas combina dois fatores específicos: o  primeiro é que o boato, que sempre existiu, passou a ganhar a forma de “notícia” para aparentar credibilidade. Possui manchete, lide, aspas de supostos entrevistados, foto e legenda que fazem parecer que aquele determinado conteúdo passou pelo crivo da apuração de profissionais. O segundo fator é a emergência, desde 2016 ou pouco antes, do que ele chamou de sites “super engajados” ou “hiper partidários”, que passaram a utilizar essa mesma formatação clássica da notícia para transmitir conteúdos opinativos.

“A coisa persuasiva da notícia falsa vem do fato de parecer ter passado por apuração jornalística. Parece que um jornalista apurou. Os boatos assumiram a forma noticiosa, uma espécie de simulacro de jornalismo.” Com a perda de credibilidade dos veículos tradicionais e o ambiente das redes sociais que se transformaram em arenas de disputa política, cada notícia, falsa ou verdadeira, serve como um petardo lançado contra o grupo rival.

Segundo Ortellado, os usuários mais radicais, que só interagem com veículos do seu próprio campo político, correspondem a menos de um quinto da audiência, mas, mais ativos, são suficientes para conflagrarem as discussões. “Quando o usuário abre a sua rede social, ele vê esse fogo cruzado. O resultado é uma desinformação generalizada.”

Ele cita ainda o “viés de confirmação”, a disposição de aceitar mais facilmente argumentos que corroboram com aquilo que a pessoa já pensa, duvidando apenas dos discursos que contrariam as próprias certezas. Estudos apontam inclusive que são justamente os mais radicalizados, em ambas as pontas do espectro político, os mais sujeitos a compartilharem notícias falsas. Tirando isso, o fenômeno incide de maneira mais ou menos homogênea em relação a classe social, sexo, nível de renda ou de instrução.

Checagem e educação

A advogada Andréia Santos, pós-graduada em Direito Digital, lembrou que atualmente tramitam no Congresso Nacional 26 projetos de lei que pretendem combater a disseminação das fake news, a maior parte com um viés de criminalização, que ela diz não ser o caminho. “Pessoas como a minha mãe que compartilha as fake news sem saber, não podem ser julgadas da mesma forma de quem mente intencionalmente.”

Ela destacou iniciativas que buscam educar o cidadão – como os manuais Sobrevivendo nas Redes, desenvolvido pelo InternetLab, e Internet, Democracia e Eleições, lançado pelo Comitê Gestor de Internet no Brasil (CGI.br) –, para evitar que fique exposto à difusão de mentiras nas redes, pois, segundo ela, trata-se de um fenômeno que vai continuar a ocorrer por muito tempo, até que todos os atores da sociedade – provedores, veículos tradicionais, poder público e terceiro setor – estejam mais conscientes.

O chefe de redação do Jornalismo do SBT, Rodrigo Hornhardt, também destacou a necessidade de se “educar para os meios”, para que as pessoas leiam o noticiário e saibam identificar o que não é notícia. Em linha parecida com os critérios de “super engajados” ou “hiper partidários”, ele destacou a necessidade de se estabelecer uma diferença entre midiativismo e jornalismo, algo que estaria também na origem, em 2013, da confusão que criou terreno fértil para o fortalecimento das fake news. 

Hornhardt também afirmou que as notícias falsas vêm mudando a rotina das redações. Antes, o fato absurdo, quando confirmado como inverídico, era descartado. Hoje o boato ganha apuração justamente para ser desmentido e, assim, alertar o público. Ele defendeu a participação dos grandes veículos, inclusive canais de televisão, nesse esforço de checagem – com ferramentas como o Comprova – justamente porque o boato, quando surge, tem uma capacidade muito grande de propagação, precisando de uma reação com proporções semelhantes.

 

RBA

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