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Brasil tem os mais baixos índices de testagem da covid-19 no mundo

O professor Valdes Roberto Bollela aponta falta de estratégia do Ministério da Saúde, desde o início da pandemia, que definisse as diretrizes de ação no combate ao novo coronavírus e na prevenção, como as testagens

O Brasil está em segundo lugar no ranking dos números absolutos de pessoas infectadas e de mortes pela covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos. Mas com relação à testagem da população para rastrear a presença do novo coronavírus, o País está muito defasado na comparação com outros que saíram na frente, adotando testagem mais cedo e usando seus resultados para definir políticas públicas.

Dados atualizados, no site worldometers.info, indicam que o Reino Unido fez 180 mil testes por milhão de habitantes; a Rússia, 160 mil testes por milhão de habitantes; Singapura, 172 mil e Portugal fez 134 mil e Espanha fez 128 mil. Os Estados Unidos fizeram 133 mil. 

Isso sem contar os países do Oriente Médio, como os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, que foram os campeões em testagem. Fizeram 400 mil testes por milhão de habitantes. Ou seja, 20 vezes mais que o Brasil, que fez apenas 21 mil testes por milhão de habitantes.

Mas há uma explicação para esse resultado tão baixo no Brasil. O professor Valdes Roberto Bollela, da Divisão de Moléstias Infecciosas e Tropicais do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, aponta a falta de estratégia do Ministério da Saúde desde o início da pandemia. Para ele, nunca houve uma política pública centralizada que definisse as diretrizes de ação no combate ao novo coronavírus e na prevenção, como as testagens. 

Bollela diz que houve falta de clareza por parte do Ministério da Saúde sobre a estratégia a ser adotada contra a doença, o que se reflete na desinformação da população. A negação de minimização da epidemia também contribuiu para dificultar o enfrentamento.

O Ministério da Saúde informou, no início de julho, que os laboratórios públicos ampliaram em 869% a capacidade para realização de testes. Ainda segundo o Ministério, de 5 de março a 30 de junho, foram distribuídos 3.880 milhões de kits de testes RT-qPCR para os 27 Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacen), para os três Centros Nacionais de Influenza e laboratórios colaboradores. Em Ribeirão Preto, a infraestrutura para testagem começa a ganhar reforço agora com dois robôs cedidos pelo Instituto Butantã e a FioCruz, com capacidade para processar 1.600 testes por dia.

O teste molecular, que colhe material com o cotonete raspando na garganta ou no nariz, é o mais adequado e sensível para o diagnóstico da doença. O teste sorológico faz a pesquisa de anticorpos, a resposta imunológica contra o vírus. Não é tão importante para o diagnóstico da doença ativa, mas dá uma boa ideia da disseminação do vírus na população.

O pesquisador considera muito grave não testar amplamente a população, pois não se sabe a dimensão do problema que se está enfrentando. O professor explica a importância da testagem com uma metáfora: “É como se nós estivéssemos presos num quarto querendo sair e procurando a chave da porta no escuro.”

Mas o problema do Brasil, na baixa testagem da covid-19, não se resume à falta de uma política pública centralizada. Há também questões práticas como a importação de insumos para produzir os kits de testes. A professora Vânia Takahashi, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, explica que o Brasil tem tecnologia para a produção dos kits de testagem, faltam os insumos (enzimas, sais, reagentes importados com muita demanda mundial).

Ela relata que o Centro de Biotecnologica da IFRGS (CBiotec) está produzindo enzimas que podem ser utilizadas na fabricação do kit de testagem. “Existe uma necessidade de investimento em ciência e desenvolvimento de um parque tecnológico para garantir autonomia para produção de insumos e reagentes para fabricação dos kits”, defende ela.

Pesquisadora na área de transferência de tecnologia aplicada nos setores cosméticos e farmacêuticos, entre outros, a professora afirma que “é preciso um esforço político para estimular a produção de insumos no Brasil e evitar a dependência do mercado externo. A pandemia trouxe dificuldades para a compra de insumos porque o mundo inteiro está produzindo kits de testagem”.

Portal Vermelho – Publicado no Jornal da USP