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Como o futebol e a mídia podem ajudar no combate à cultura do estupro

Por Marcos Aurélio Ruy

A exposição midiática sobre a condenação do jogador Robinho (sem clube) por violência sexual na Itália, em 2017, trouxe à tona um importante debate sobre o papel do esporte na vida das pessoas. Condenado em primeira instância, o jogador recorreu da sentença e outro julgamento está previsto para o dia 10 de dezembro – justamente o Dia Internacional dos Direitos Humanos.

Com base em conversas grampeadas pela justiça italiana, o jogador brasileiro foi condenado a nove anos de prisão por três juízes, sendo duas mulheres. O jogador retornou ao Brasil antes do resultado do julgamento.

As notícias reverberaram na imprensa, quando muitas torcedoras e torcedores do Santos protestaram contra a contratação do atleta pelo clube do litoral paulista. Por causa da pressão da torcida, várias empresas ameaçaram tirar o patrocínio da equipe santista. O clube e o jogador, de 36 anos, suspenderam o contrato.

“O futebol brasileiro tem identidade de massa”, afirma Berenice Darc, secretária de Relações de Gênero da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). E como “o esporte não pode ser analisado fora do contexto social, nos últimos anos, várias torcidas organizadas têm representado um papel importante nas lutas políticas”.

Ela complementa afirmando que “a torcida do Santos tem apresentado posicionamentos progressistas e importantes para a luta em defesa da democracia”.

“Ainda mais em se tratando do país posicionado entre os cinco mais violentos contra a mulher, torcedores de um clube de futebol não aceitarem determinadas condutas dá esperança de mudanças”, avalia Celina Arêas, secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

Para Gicélia Bitencourt, secretária da Mulher da CTB-SP, “o futebol que sempre foi visto como um instrumento de inclusão social, não pode mais aceitar postura de violência seja de qualquer natureza dos seus jogadores sejam eles famosos ou não”.

Mas “para além da inclusão social, o esporte precisa contribuir fortemente para o avanço social combatendo toda forma de preconceito e discriminação e sobretudo a violência contra as mulheres, seja violência sexual, doméstica ou de qualquer outro tipo”.

Berenice diz se impressionar como “parte da população brasileira reafirma preconceitos contra as mulheres vítimas de violência”. Principalmente porque “as falas, as expressões e as conversas gravadas do Robinho que aparecem na mídia não deixam dúvidas sobre a visão dele em relação às mulheres”.  De acordo com ela, “Robinho fala como se a moça fosse um objeto. Ele tenta desumanizar a vítima como tática de defesa”.

Porque “se o homem está bêbado e comete alguma violência, a alegação é de falta de consciência do ato”. Mas, “no caso da mulher estar alcoolizada e ser estuprada, dizem que isso aconteceu porque ela não segue os padrões convencionais preconizados pelo patriarcado por estar bêbada”, reforça Berenice.

“O problema é muito sério”, alega Kátia Branco, secretária da Mulher da CTB-RJ. Ela se refere aos dados do 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta segunda-feira (19). “O desrespeito às mulheres vem se agravando com a posse de Jair Bolsonaro, venerado por Robinho”.

Kátia destaca que “a violência doméstica cresce ainda mais durante a quarentena na pandemia” e, por isso, “é essencial debater o assunto e a mídia tem papel fundamental nesse debate”.

Pelo anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ocorre um estupro a cada 8 minutos no país. Foram 66.123 casos registrados, em 2019.  E 57,9% das vítimas tinha no máximo 13 anos, sendo que em 70,5% das notificações, as vítimas tinham menos de 14 anos.  De acordo com os organizadores do estudo a subnotificação continua gigantesca.

“As diferentes mídias cumprem papel fundamental na superação da cultura do estupro”, afirma Lucia Rincon, professora universitária, sindicalista e estudiosa do papel da mídia nas questões de gênero. Por isso, “precisamos sim das denúncias e dos chamamentos à responsabilização da sociedade e também aos valores do caráter de seres humanos também para as mulheres”.

Principalmente para afirmar “a construção da igualdade, os direitos humanos das mulheres, o combate ao patriarcado, ao machismo e à violência de gênero em todas as suas formas”.

Em uma fala grampeada, o jogador diz estar rindo e não estar “nem aí” porque “a mulher estava completamente bêbada, não sabe nem o que aconteceu”.

Para piorar, em recente entrevista, para se defender Robinho ataca o feminismo. “Infelizmente, existe esse movimento feminista. Muitas mulheres às vezes não são nem mulheres, para falar o português claro. E se levantam contra os homens”, diz.

Para Berenice, “essa fala denuncia o seu caráter misógino e o desespero em se ver denunciado. Não é uma fala de alegação de inocência”. No mínimo, “o jogador deveria estudar um pouco as importantes conquistas que o feminismo trouxe para a humanidade”. Mesmo porque, “homem que é homem não estupra, nem age com violência”. Lembrando ao jogador que “peixe morre pela boca”.

CTB