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Depois de cerca de meio século, Brasil está saindo do grupo dos 10 países mais industrializados do mundo

A edição do Boletim de Conjuntura do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos socioeconômicos – DIEESE -, de julho e agosto, fala sobre a crise da indústria, afirmando que depois de quase 50 anos, o Brasil está saindo do grupo dos 10 países mais industrializados do mundo. Isso se deve a uma série de fatores. Confira a análise do Departamento:

A crise da indústria é anterior à pandemia. Em 2019, a produção industrial no Brasil já tinha diminuído 1,1% em relação a 2018. O patamar de produção industrial de 2019 foi semelhante ao de 2009: é como se o país tivesse regredido 10 anos em termos de produção industrial. Não tem como ser diferente: para a indústria, a década que se encerra em 2020 será novamente uma década perdida. Isso já era esperado antes da pandemia e de o mundo ter ingressado numa das piores crises da história do capitalismo.

O problema conjuntural, ligado à crise, e o estrutural (desindustrialização), coincidem com o período em que o mundo atravessa a chamada Quarta Revolução Industrial. O Brasil precisaria investir bilhões em pesquisa e inovação industrial nesse momento, para, ao menos, congelar a histórica defasagem científico-técnica que tem em relação aos países desenvolvidos.
O orçamento da ciência e tecnologia para esse ano, no entanto, é de 7,3 bilhões, menor em termos nominais do que o de 2014, de 8,4 bilhões.

Na passagem de abril para maio deste ano, o IBGE constatou crescimento de 7,0% na atividade industrial nacional, na série livre de influências sazonais, com aumento em 12 dos 15 locais pesquisados. Os resultados refletem, na realidade, o retorno à produção, pelo menos em algumas unidades produtivas, após as interrupções decorrentes da pandemia.

Apesar da recuperação mensal em maio, no trimestre móvel encerrado em maio, o índice caiu 8,0%, na comparação com o trimestre encerrado no mês anterior. Ou seja, os indicadores mantiveram a trajetória descendente iniciada em outubro do ano passado. Ainda na média trimestral encerrada em maio, 14 dos 15 locais pesquisados apresentaram taxas negativas de atividade.

O impacto da pandemia no setor industrial pode ser também observado na comparação com maio de 2019: a taxa nacional caiu -21,9 em maio de 2020, com resultados negativos em 14 dos 15 locais pesquisados. As maiores quedas ocorreram no Ceará (-50,8%), Amazonas (-47,3%), Espírito Santo (-31,7%), em Santa Catarina (-28,6%), no Rio Grande do Sul (-27,3%),
São Paulo (-23,4%) e Nordeste (-23,2%), todos com taxas negativas maiores que a média da indústria nacional (-21,9%).

Estes resultados da indústria, os piores da história, decorrem de uma confluência de fatores:


a) com o isolamento social, o consumo de bens e serviços em geral caiu drasticamente. A produção só tem sentido se houver consumo;


b) em função da recessão mundial e da pandemia, há queda acentuada das exportações de manufaturados no Brasil (-32% em abril, segundo o IBGE);


c) as cadeias de produção, por sua vez, foram, num primeiro momento, desarticuladas.
A China, que, juntamente com outros países da região, provê boa parte dos insumos industriais, mergulhou numa crise brutal no primeiro trimestre, para combater a covid-19.


d) nenhuma empresa quer investir neste quadro de crise e incertezas. Talvez entre algum recurso externo para aquisição de estatais, as quais o governo pretende colocar à venda em prazo curto. Mesmo assim, não há garantias, pois existe grande resistência na sociedade em geral e no Congresso Nacional em relação às privatizações. É importante considerar que crescimento econômico não é agenda consensual ou mesmo central entre as empresas. A retirada de direitos após 2016, as privatizações e as desonerações vêm garantindo o retorno sobre o capital investido para boa parte das empresas, especialmente as grandes. Ademais, cabe considerar que boa parte da lucratividade das empresas é originária de investimentos
financeiros.


Graves crises como a atual só conseguem ser enfrentadas com a coordenação do Estado, que tem condições de fazer políticas monetária, cambial, industrial etc. No Brasil não existem, neste momento, ações estratégicas para enfrentar os problemas da indústria e dos demais setores. O governo insiste numa política de austeridade, na contramão do que vem
sendo realizado no mundo todo. O discurso segundo o qual o ajuste neoliberal é um sacrifício necessário para restabelecer as condições para a retomada do crescimento não se comprova e não se sustenta mais.
A difícil situação atual requer políticas de gastos em saúde, renda e de atendimento dos milhões que perderam o emprego . Seria fundamental também, em um momento como este, a preparação, com coordenação do Estado, de um processo de indução de um grande ciclo de investimentos para retomada do crescimento e do emprego no pós-pandemia. Nada
que o atual governo federal tenha a menor intenção de realizar, aliás, muito ao contrário: o plano limita-se à privatização de ativos públicos.

Fonte: Dieese