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Desemprego em cascata: cada emprego formal fechado impacta 2 informais

Para Clemente Ganz Lúcio, do Dieese, crise vai deixar um contingente de endividados e corroer a renda sobretudo entre os informais

O fechamento de empregos formais durante a pandemia de Covid-19 tem provocado um efeito cascata no mercado de trabalho e atingido em dobro os trabalhadores informais no País. Para cada brasileiro com carteira assinada que ficou desempregado, dois informais ficaram sem trabalhar.

Os cálculos se baseiam na última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, que compara o trimestre de dezembro/2019 a fevereiro/2020 com o trimestre março-maio. A Pnad foi realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e divulgada na semana passada, enquanto as projeções de impactos no mercado de trabalho são do professor sênior da Universidade de São Paulo (USP) Hélio Zylberstajn.

No período analisado, 3,98 milhões de trabalhadores informais perderam sua principal fonte de renda. No caso dos formais, 1,99 milhão ficaram desocupados. Pela primeira vez, mais da metade da população brasileira em idade para trabalhar está sem ocupação, segundo o IBGE, refletindo duas crises econômicas: a primeira, em curso desde 2019, reflete a recessão brasileira sob a desastrosa política ultraliberal do governo Jair Bolsonaro; a segunda, mais recente, capta os efeitos da pandemia.

Para Clemente Ganz Lúcio, diretor do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), a crise vai deixar um contingente de endividados e corroer a renda sobretudo entre os informais, mesmo com medidas como o auxílio emergencial de R$ 600 para a baixa renda. “Enquanto outros países já trabalham para pensar a saída da crise, o governo do Brasil fala em reformas”, critica Clemente.

Sem acesso à rede de proteção social do emprego com carteira assinada, o trabalhador informal está mais exposto aos efeitos das crises. Geralmente estão em funções que dependem da renda dos demais trabalhadores e ficam sem opção quando há uma queda da atividade econômica.

Na crise atual – que tem limitado a circulação de milhões de pessoas pelas cidades brasileiras –, o vendedor de café parou de trabalhar na porta do metrô e o camelô perdeu a freguesia. “O grupo informal foi o que mais sofreu logo no início da quarentena. Para eles, a ocupação se dissipou imediatamente, na medida em que a demanda por seus serviços desapareceu”, diz Zylberstajn.

Segundo o economista, os informais também devem puxar a recuperação do mercado de trabalho no ano que vem, já que tradicionalmente as empresas demoram a recontratar, e as pessoas voltam para o mercado como podem. Em 2017, logo após a última recessão, o número de brasileiros trabalhando por conta própria e sem carteira assinada superou pela primeira vez o daqueles que tinham um emprego formal. O ano terminou com 34,3 milhões de informais, ante 33,3 formais, segundo o IBGE.

Na avaliação de Zylberstajn, o melhor desempenho do emprego formal durante a pandemia indica que as medidas de redução de jornada de trabalho e de salário e a suspensão dos contratos, embora duras, ajudaram a manter empregos. “O prejuízo foi contido. Sem a Medida Provisória 936 teria sido pior.”

Ainda assim, levantamento feito por pesquisadores do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas) aponta que, em função de redução de salário por conta da pandemia, 3,8% das famílias acabaram atrasando o pagamento de contas. Já 9,1% ficaram inadimplentes por terem perdido o emprego. Conforme Viviane Seda (Ibre), as dificuldades das famílias podem ter efeito redutor na recuperação econômica.

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