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Do trabalho metalúrgico ao desemprego: como a crise afeta o operariado

Ford's oldest Brazil plant is seen after the company announced its closure, in Sao Bernardo do Campo, Brazil February 20, 2019. REUTERS/Amanda Perobelli

O que aconteceu com os trabalhadores da Ford de São Bernardo do Campo (SP) que, em 17 de fevereiro de 2019, souberam que a montadora fecharia aquela que era uma de suas históricas fábricas no Brasil? Como a experiência e as lições tiradas por aqueles metalúrgicos podem ajudar os outros milhares de trabalhadores da empresa que, agora, anuncia o fechamento das três plantas fabris remanescentes – em Camaçari (BA), Taubaté (SP) e Horizonte (CE)?

Há dois anos, no dia seguinte à drástica notícia em São Bernardo, uma reportagem da BBC News Brasil foi à cidade do ABC Paulista e conversou com operários demitidos da Ford e pegos de surpresa com o desemprego que se avizinhava. Segundo a BBC, o fechamento da fábrica pode ser considerado “um prenúncio do que aconteceria depois, com a saída definitiva da montadora americana do país”.

Um dos metalúrgicos que ficaram desempregados foi Clayton Diógenes da Silva, hoje com 45 anos. Ao saber do encerramento das atividades na planta onde ele trabalhava, Clayton lembrou a história de sua família – toda ela ligada à multinacional. “Foi na Ford que meu pai criou cinco filhos e que eu criei meus dois”, afirmou o inspetor de processo, que por 24 anos atuou na fábrica do ABC paulista. “Entrei com 19 anos, e ainda trabalhei um ano com meu pai aqui.”

Dois anos depois daquele anúncio, o metalúrgico segue desempregado. “Já fiz entrevistas, mandei currículos, participei de seleções, mas até agora nada. Está difícil”, diz. “Muitos dos meus colegas estão na mesma situação.”

O caso de Clayton não é único entre os 2.800 funcionários diretos que foram desligados da empresa. O número real de metalúrgicos afetados é bem maior – também houve corte nas empresas que prestavam serviços para a Ford, como terceirizadas e fornecedoras de materiais para a montagem dos veículos.

Esse cenário de desemprego no operariado pode se repetir nos próximos meses em Camaçari, Horizonte e Taubaté. Apenas na primeira – a maior das plantas da Ford no Brasil –, cerca de 12 mil pessoas devem perder seus empregos.

Dos quatro ex-operários de São Bernardo ouvidos novamente pela BBC nesta semana, apenas um conseguiu recuperar o emprego de metalúrgico. Ele recebeu a notícia da contratação na segunda-feira, exatos dois anos depois do anúncio do fechamento da Ford na cidade. Outros dois estão desempregados, e um deles conseguiu se aposentar.

Clayton acredita que sua idade (45 anos) influencia na hora da contratação. “Participei de várias entrevistas. Alguns colegas mais jovens, com menos experiência e menos formação que eu, conseguiram passar”, relata. “Não é culpa deles, claro. Nem minha. Mas não conheço ninguém com mais de 40 anos que tenha conseguido passar. Minha idade é considerada avançada nessa área.”

No período de desemprego, ele não ficou parado: fez um curso técnico no Senai e outros de especialização. Anos atrás, foi a Ford quem pagou sua faculdade de tecnologia em processo de produção. “Foi até engraçado entrar no Senai de novo, com 45 anos, e os colegas de turma com 18, 20… O pessoal já me chama de tiozão”, brinca.

O metalúrgico também tentou adiantar a aposentadoria, mas teve seu processo negado pelo INSS. Nesses dois anos, diz que precisou se adaptar à nova renda, bastante menor que a de seus tempos na Ford: “Nossa sorte foi que eu tinha dinheiro guardado, casa própria, carro pago. Minha esposa também trabalha. Conseguimos manter pelo menos os filhos na escola deles. Nossa prioridade era manter os estudos”.

O metalúrgico Juliano de Oliveira Duarte, de 39 anos, é outro que ainda busca emprego. “Vivo de bico. Arrumo o carro de um amigo, faço instalação elétrica, tapeçaria, tudo que me chamarem”, diz ele. Sua esposa, operadora de telemarketing, também ficou desempregada recentemente.

Nos últimos dois anos, a família precisou cortar gastos: escola particular dos três filhos, plano de saúde, TV a cabo e passeios no fim de semana foram eliminados das contas. “No mercado, a gente só compra o básico. Economizamos ao máximo e vivemos negociando as nossas contas”, conta Juliano.

Segundo o operário, pesa contra ele um problema de saúde adquirido na fábrica de São Bernardo, onde atuou por 11 anos na linha de montagem de carros e caminhões. “Tenho um problema no ombro e no braço, que começou quando eu trabalhava lá. Cheguei a operar e ficar afastado um período da Ford”, explica.

“Agora, quando chego na seleção, a empresa vê que tenho esse problema e não me chama de jeito nenhum. Se você não tem 100% do que eles querem, nunca te chamam. As portas estão fechadas para mim”, agrega ele, que também teve um pedido de aposentadoria negado pelo INSS.

O metalúrgico critica a postura da Ford diante das dificuldades e vislumbra um futuro parecido com o seu para os metalúrgicos das três fábricas que irão fechar em breve. Segundo ele, a montadora norte-americana “recebeu muitos benefícios e redução de impostos para ficar no Brasil. Quando o negócio não ficou mais viável, ela simplesmente jogou tudo para o alto e deixou todos os funcionários na mão. São pessoas que estavam na empresa havia décadas”.

Sergio Soares, de 51 anos, teve um pouco mais de sorte: assim que saiu da Ford em 2019, conseguiu se aposentar. Para ele, contou o período de insalubridade, reconhecido pelo INSS. “Muitos colegas não tiveram a insalubridade reconhecida e ainda estão tentando se aposentar. Estão parados, sem oportunidade”, compara.

Se a fábrica não fechasse, ele pretendia continuar trabalhando por mais cinco anos – até porque, mesmo aposentado, viu sua renda cair consideravelmente. “Queria continuar para juntar dinheiro, fazer um pé de meia e terminar de pagar o financiamento da minha casa. Tive que adiantar tudo isso. O dinheiro da indenização serviu para pagar as prestações”, diz Sergio, que por 25 anos atuou na Ford do ABC paulista.

Dos quatro ex-funcionários, apenas Paulo Francisco dos Santos, de 44 anos, conseguiu novo emprego como metalúrgico – um contrato temporário de seis meses em outra montadora da região. “Recebi a notícia ontem (18). Estou muito feliz. Foram dois anos de muita luta, de muita dificuldade, atrasei muitas contas em casa”, relata.

Paulo confirma que seus antigos companheiros ainda sofrem os impactos do fechamento da Ford. “Muitos dos meus colegas estão na mesma situação, vivendo de bicos, desesperados para conseguir algo estável, com carteira assinada”, conta ele, que por 11 anos trabalhou na montadora americana.

Nesse período, Paulo trabalhou como entregador em uma empresa de comércio eletrônico. Para conseguir o trabalho, precisou comprar um carro. O emprego era bem diferente da estabilidade e dos benefícios oferecidos pela Ford, que pagava participação nos lucros, plano de saúde e vale-alimentação.

“Como entregador, eu trabalhava 12 horas por dia, sem parar. Se eu não fosse no domingo, levava advertência e podia até ser dispensado. Era um ritmo maluco, no chicote mesmo”, explica. Mesmo trabalhando arduamente, seus rendimentos como autônomo chegavam a R$ 2.800 “nos meses bons”.

Na Ford, ele ganhava o dobro disso. Agora, prestes a começar em nova empresa, ele admite que as condições de trabalho continuarão inferiores aos do tempo da montadora. “Emprego de metalúrgico, registrado em carteira e com benefícios, é quase impossível de conseguir hoje em dia. Tive sorte.”

Fonte: Portal da Fitmetal, com informações da BBC News Brasil