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Aposentados estão prontos para ir às ruas, diz presidente da Cobap

02/12/2009

"Se na era Collor houve os caras-pintadas, a era Lula pode ser marcada pelos caras-enrugadas nas ruas". Bom humor à parte, o tom do presidente da Confederação Brasileira de Aposentados e Pensionistas (Cobap), Warley Martins, é extremamente sério quando o assunto em pauta é a relação do governo federal com os trabalhadores que contribuíram por décadas para a Previdência Social.

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Warley Martins, presidente da Cobap

Se por um lado Martins celebra o recente acordo com as seis maiores centrais sindicais (CTB, CUT, Força Sindical, UGT, Nova Central e CGTB) do país, por outro ele vê com pessimismo a resposta que o governo federal dará ao acordo defendido pela Cobap. "Acreditamos que a proposta já foi negada, mas vamos aguardar até a próxima quarta-feira (2) para decidir que medidas tomar", afirmou.

Reunidas na sede da CTB na semana passada, as seis centrais sindicais e a Cobap chegaram a uma posição unitária no que diz respeito ao índice de reajuste das aposentadorias para os próximos anos e ao fim do fator previdenciário.

A proposta pode ser resumida em três pontos fundamentais:

- defender a imediata aprovação da Política Permanente de Recuperação do Salário Mínimo, até 2023, com base no INPC do ano anterior, acrescido da variação do PIB de dois anos anteriores;

- defender o estabelecimento de uma Política Permanente de Recuperação dos Benefícios das Aposentadorias e Pensões com valores superiores ao salário mínimo, com base na variação do INPC do ano anterior, acrescido de 80% do PIB de dois anos anteriores;

- reunificar a posição das centrais pelo fim do Fator Previdenciário, contra a exigência de idade mínima para aposentadorias e contra a adoção da chamada média curta para cálculo das aposentadorias.

Em entrevista exclusiva ao Portal da CTB, Martins disse que a Cobap liderará, no começo de 2010, uma campanha nacional para reunir dois milhões de assinaturas, com a finalidade de se realizar uma grande auditoria nas contas da Previdência. "Achamos que não há déficit. Queremos apurar todos os valores", diz.

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

Portal CTB: Como você analisa o recente acordo entre as centrais sindicais e a Cobap em torno de uma única proposta pelo fim do Fator Previdenciário e por um reajuste mais digno aos aposentados que recebem acima do salário mínimo?

Warley Martins: Essa proposta foi sem dúvida um grande avanço, o caminho é por aí mesmo. Antes eram apenas quatro as centrais sindicais unidas, e agora temos as seis principais, com a chegada da CUT e da Força. Estamos juntos, mas acredito que o governo não aceitará essa proposta, pois até agora ninguém nos chamou para debatê-la. A união foi muito boa, mas aparentemente o governo irá oferecer o seu próprio percentual. Por enquanto, vamos esperar até quarta-feira.

CTB: Depois da vitória na CCJ e do acordo fechado com as centrais na semana passada, falou-se em uma reunião com o ministro Luiz Dulci (Secretaria Especial da Presidência) para se tratar desse tema. Ainda existe essa possibilidade?

Martins: Até agora não aconteceu nada disso. Ninguém foi chamado. Para a Cobap, a proposta da semana passada foi negada e deveremos partir para outra, logo no começo de dezembro, pois no próximo dia 22 vai começar o recesso parlamentar e antes disso o governo tem que publicar as Medidas Provisórias que atendam nossas reivindicações.

CTB: A Cobap aposta, então, em uma forte mobilização popular para que os aposentados tenham suas reivindicações atendidas? Existe algum outro caminho para que o fim do Fator Previdenciário (inclusive do fator 85/95) e o aumento salarial de 7,72% sejam contemplados?

Martins: A Cobap tem sua bandeira, que é a de que todas as aposentadorias sejam corrigidas pelo mesmo reajuste. Sabemos que a Cobap, sozinha, não vai a lugar algum. Precisamos, portanto, da ajuda das centrais, que juntas são fortes e terão que nos ajudar a levar os trabalhadores a Brasília, como foi feito na mobilização pela Redução da Jornada de Trabalho. A ideia é pelo menos fazer com que a Câmara vote a proposta ainda este ano, independentemente de o governo apresentar uma contraproposta ou não.

CTB: Qualquer proposta de reajuste abaixo dos 7,72% será refutada?

Martins: Quando nos reunimos inicialmente em Brasília, a CUT e a Força propuseram um valor abaixo disso, algo que foi aceito pelo governo. Agora, apesar do consenso entre as centrais, o governo continua com a velha proposta (reajuste de 6,19%, a partir do cálculo de 50% do PIB), que nós não aceitamos. Hoje ou temos os 7,72% ou iremos para as ruas, para a Câmara Federal, partiremos para a pressão sobre os deputados. Se na era Collor houve os caras-pintadas, a era Lula pode ser marcada pelos caras-enrugadas nas ruas.

CTB: Existe a possibilidade de se discutir de forma separada o fim do Fator Previdenciário e a questão do reajuste dos aposentados que recebem mais do que um salário mínimo?

Martins: O governo já fez isso, já separou esses temas, tentando deixar essa discussão do Fator Previdenciário para o ano que vem - algo que nós e as centrais não concordamos. Acho que o governo não vai negociar e irá lançar na semana que vem uma Medida Provisória para o reajuste das aposentadorias. Mas insisto: se não nos derem os 80%, a Cobap está fora.

CTB: O governo tem alguma razão, por menor que seja, quando usa o argumento do déficit da Previdência para justificar reajustes tão baixos para os aposentados que recebem acima do salário mínimo?

Martins: Essa é uma velha discussão e vamos tratar a respeito dela num seminário em Brasília, na semana que vem. Posso adiantar que no início de 2010 vamos pedir uma auditoria das contas da Previdência - e para isso esperamos contar com o apoio das centrais. Queremos tirar essa dúvida sobre o déficit, pois achamos que ele não existe. Entendemos que somente nos últimos seis meses a Previdência teve um superávit de R$ 20 bilhões, cálculo feito pela Cobap. A meta é conseguirmos dois milhões de assinaturas e exigir essa auditoria, para que ninguém mais seja difamado por apresentar dados diferentes dos oficiais.

Fernando Damasceno - Portal CTB


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