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Em 10 anos, mão-de-obra feminina cresce 96% no ramo metalúrgico

14/01/2010

Quando mais jovem, Mileide Monari Pedroso ficava fascinada durante as visitas que fazia à fábrica da Ford, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, onde o pai trabalhava. Achava aquele mundo "fantástico", como define, mas não via a linha de montagem como um futuro profissional.


 


"Não havia mulheres nem mesmo na área de limpeza", lembra ela. Mileide trabalhou como recepcionista de hospital e no setor de degustação de um supermercado. Fez faculdade na área de Recursos Humanos e há dois anos foi contratada como montadora na Ford, após ser indicada pelo pai e passar em vários testes. Hoje, aos 27 anos, ela prepara os automóveis para receber as rodas e o freio de mão.



Já são 350 mil



"No começo, muitos achavam que nós, mulheres, não daríamos conta do serviço", lembra ela, cuja maior dificuldade no dia a dia da fábrica é manter o silêncio. "Eu falo demais e aqui não pode, pois é preciso concentração no trabalho." No setor em que trabalha há cerca de 50 homens e duas mulheres.


 


Mileide compõe a massa de quase 350 mil mulheres metalúrgicas identificadas em estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), mão de obra que cresceu 96% em uma década. Em 1999, elas eram 176,6 mil no setor Já o número de homens cresceu 72% no mesmo período, para 1,76 milhão de trabalhadores.



Caprichosas



"Muitos empregadores chegaram à conclusão de que as mulheres são mais caprichosas e mais produtivas que os homens", diz Clementino Vieira, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos (CNTM), entidade ligada à Força Sindical que encomendou o estudo.


 


De acordo com o levantamento, as mulheres correspondem a 16,4% da força de trabalho metalúrgica. A atuação delas é maior nos ramos de fabricação de máquinas, equipamentos, materiais elétricos, veículos e autopeças.


Montadoras



Nas montadoras, a presença das mulheres, na maioria dos casos, é mais intensa nas fábricas mais novas. Na Ford de São Bernardo do Campo, a mais antiga do grupo, 3% da mão de obra na linha de produção é composta por mulheres. Na filial da Bahia, inaugurada em 2001, elas são bem mais: 25% do efetivo.


 


Na Volkswagen, 3% do efetivo da fábrica Anchieta, em São Bernardo, é de mulheres, enquanto na unidade de Taubaté (SP) é de 2% e na fábrica mais moderna do grupo, no Paraná, inaugurada em 1999, é de 4%. Já na fábrica de motores em São Carlos (SP) a participação sobe para 9%.


 


Também no Paraná, a fábrica da Renault, aberta em 1998, emprega 10% de mulheres. No chão de fábrica da PSA Peugeot/Citroën, instalada em 2001 em Porto Real (RJ), 8,2% da força de trabalho é composta por mulheres.



"As fábricas novas são mais automatizadas, o que demanda menos força bruta no trabalho e mais cuidado na finalização do produto", afirma Leylah Halima Macluf, gerente sênior da consultoria Deloitte.



Tabu



A presença de mulheres, antes um grande tabu nas montadoras, também ganha força nas fabricantes de caminhões.



Na MAN/Volkswagen em Resende (RJ), 13,1% de um quadro de 4,6 mil pessoas são do sexo feminino. Silvana Cristina Mateus Rosa, de 36 anos, trabalha no setor de pintura há 12 anos.



"Preparo as cabines antes de irem para a pintura, com vedação de PVC, feita com uma espécie de pistola, e isolamento com fita crepe", explica ela, que antes trabalhou como caixa em supermercado, loja de roupas e como embaladora numa indústria farmacêutica.



Silvana estava noiva quando foi selecionada para trabalhar na montadora, então recém-inaugurada. Casou-se mais tarde e hoje tem um filho de nove anos.



"Não tive nenhum problema no trabalho no período da gravidez", conta ela. Nas cinco fábricas da General Motors, 8% do efetivo é formado por mão de obra feminina, incluindo o pessoal administrativo.



Maior exploração



Na linha de montagem, porém, o número de mulheres não é tão significativo. Na Fiat, líder em vendas no Brasil, não há mulheres na linha de montagem da fábrica de Betim (MG).



As estatísticas indicam também que a crescente feminização da força de trabalho no ramo metalúrgico refletem também uma ofensiva patronal visando aumentar o grau de exploração da classe operária. Apesar de ocuparem cada vez mais espaço nas fábricas, as mulheres ganham em média 27% menos do que os homens metalúrgicos, informa relatório produzido pela Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT.



O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) calcula que, na média geral, as mulheres ganham 70% dos salários dos homens. Desta forma, ao apostar na contratação das mulheres o patronato não age por amor à causa da emancipação feminina, pois no fundo visa e logra embolsar mais lucros reduzindo os custos com mão-de-obra, ou em outras palavras, aumentando o grau de exploração do trabalho. 



Fonte: Portal CTB, com reportagem da Agência Estado


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