
05/04/2010
Uma reportagem publicada pela revista Isto é Dinheiro no final de março e disponibilizada no site da publicação faz uma denúncia contra o empresário de Caxias do Sul, Nestor Perini. O Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos reproduz aqui, em seu site, o conteúdo da matéria.
O empresário Nestor Perini, maior acionista da gaúcha Lupatech, é um das estrelas do novo capitalismo brasileiro. Sua companhia, especializada em válvulas industriais e equipamentos para o setor de petróleo e gás, captou R$ 400 milhões na Bovespa há quatro anos e hoje vale R$ 1,2 bilhão. Entre seus principais sócios estão o fundo de pensão Petros, dos funcionários da Petrobras, e o BNDESpar, empresa de participações do BNDES.
Na roda da fortuna do pré-sal, que promete colocar o País no panteão das grandes potências petrolíferas do mundo, a Lupatech tem posição privilegiada. Em um projeto de exploração de petróleo de R$ 20 bilhões, por exemplo, pode abocanhar de 2% a 4% para fornecer seus produtos. O dinheiro já está entrando. No dia 16, Perini anunciou um novo contrato com a Petrobras. Irá receber R$ 150 milhões para proteger internamente os tubos dos poços da estatal. Porém, as boas notícias terminam por aí.
Um processo rumoroso que corre na Justiça do Rio Grande do Sul, ao qual DINHEIRO teve acesso, está causando problemas para o empresário. Em dezembro passado, sua holding familiar, a Lupapar, dona de 25% da Lupatech, sofreu uma penhora milionária de ações da controlada. Perini teve de entregar ações da empresa avaliadas em R$ 6,8 milhões, devido a um processo envolvendo uma antiga dívida pessoal, no valor de R$ 5,6 milhões.
O bloqueio das ações foi feito em favor de uma empresa de cobrança, a Libro Companhia Securitizadora de Crédito Financeiro, de São Paulo. O caso teve origem em outros negócios da família Perini e tem todos os ingredientes de um escândalo de governança corporativa, com acusações de movimentação irregular de recursos e ocultação de patrimônio para fugir de credores.
Tudo começou com um fracasso empresarial dos Perini no ramo agropecuário. No início da década, dois frigoríficos da família em Cuiabá faliram e deixaram um passivo de R$ 60 milhões em valores da época. Entre os credores, estavam fazendeiros que deixaram de receber pelo abate de seus bois e bancos que haviam emprestado dinheiro para o negócio. Esse caso foi relatado em detalhes na edição 162 da DINHEIRO, publicada em outubro de 2000. Desde então, os credores tentam receber os recursos na Justiça.
No processo vencido pela Libro, Perini e seus familiares sofrem acusações de pagamento irregular de dívidas pessoais com recursos da Lupatech. Um cheque da Lupapar assinado por Perini, no valor de R$ 264.821,44, foi usado para quitar uma dívida de outro familiar, Cezar Luiz Perini, o responsável pelos frigoríficos falidos. É a velha prática da confusão patrimonial de pessoas físicas e jurídicas, comum em empresas familiares. “É a Lupapar Ltda. quem paga as dívidas do sr. Nestor Perini!”, escreveram os advogados de acusação, Alexandre Espinola Catramby e Vitor Mucury Cardoso.
Na busca por bens que pudessem ser penhorados, os credores encontraram apenas imóveis e veículos de baixo valor, como um Opala ano 1978. Também se depararam com vultosas doações entre os acionistas da holding familiar. Em 2008, Perini doou R$ 3,98 milhões para Cezar Luiz Perini, que repassou R$ 2,97 milhões para a conta-corrente de um filho.
Para a Justiça, é ilegal qualquer movimentação financeira de uma empresa que sirva para mascarar a existência de ativos. “Uma companhia visa ter lucro e não tem por que doar recursos para os sócios ou partes relacionadas a eles”, esclarece Marcus Phelipe de Souza, do escritório Frignani e Andrade Advogados Associados.
Segundo os credores, Perini mantém um patrimônio espartano e, assim, consegue escapar das cobranças. Na maioria das empresas da qual é sócio, a Lupatech possui o controle e ele tem apenas 0,1% do capital social em seu próprio nome. É o caso, por exemplo, da Metalúrgica Nova Americana, da Carbonox Fundição de Precisão e da Valmicro Indústria e Comercio de Válvulas.
Pelas regras da boa governança corporativa, Perini não deveria ocupar a presidência do conselho de administração e da diretoria da Lupatech simultaneamente, como tem feito. Apesar disso, a empresa tem boa imagem junto a analistas e gestores de fundos de investimento ouvidos pela DINHEIRO. Até a quarta-feira 24, o papel da Lupatech na BM&FBovespa estava em queda de 5,1% neste ano, enquanto o Ibovespa está com 0,5% de alta. No ano passado, a alta foi de apenas 16%, bem abaixo dos 83% do Ibovespa.
O balanço de 2009 teve a divulgação marcada para a segunda-feira 29. Procurado pela DINHEIRO, o empresário respondeu por meio da assessoria de imprensa da Lupatech que “prefere não se pronunciar sobre o processo”. A falta de transparência, como se sabe, é outro grave pecado quanto se trata de governança de companhias abertas.
Fonte: revista Isto é Dinheiro. matéria de Márcio Kroehn (http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/17903_UM+PRESIDENTE+EM+APUROS)
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