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Retomada econômica ignora mães que precisam ir ao trabalho e não terão escolas para deixar os filhos

Planos de Governos e empresas não contemplam rotina de mulheres que temem desemprego enquanto buscam solução para voltar ao trabalho presencial com escolas fechadas

A analista de marketing Gabriela Jansen, 26, está comemorando seu primeiro mês empregada em uma empresa no setor de beleza em São Paulo. Desde o início de maio, ela trabalha em casa, onde vive com a mãe e a filha, Manuela, de seis anos. Diariamente, Gabriela interrompe o trabalho às 16h e retoma às 17h, em acordo com a empresa, para poder acompanhar as aulas online de Manuela. No resto do tempo, auxilia a filha nas lições de casa, ao mesmo tempo em que trabalha. “Está sendo uma loucura conciliar tudo”, diz. Mas desde a semana passada, quando o prefeito Bruno Covas (PSDB) anunciou o plano de retomada gradual de alguns setores da economia na cidade, ela teve de acrescentar uma preocupação a mais em sua rotina: pensar em como fará com a filha quando retornar ao trabalho presencial. Isso porque os planos de reabertura não incluem, por ora, os portões das escolas.

Assim como a chegada da pandemia do coronavírus mexeu com a rotina de muita gente, agora, os planos de retorno ao que era próximo da normalidade fará o mesmo. “Estou pensando em revezar os cuidados da minha filha com a minha mãe e minha ex-sogra, mas ainda não sei”. O pai de Manuela, de quem Gabriela é separada, é funcionário de um banco e também não pode ficar com a filha durante o dia. “Estou quebrando a cabeça para saber o que fazer”. Assim como Gabriela, milhares de outras mães estão tendo que aumentar seus malabarismos para planejar a retomada ao trabalho presencial.

E “quebrar a cabeça” será mais uma atividade somada às horas dedicadas pelas mulheres aos cuidados com a casa. De acordo com o levantamento Outras formas de trabalho, realizado anualmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e divulgado nesta quinta-feira, em 2019, as mulheres dedicaram quase o dobro de horas semanais (21,4) aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas, especialmente crianças, em relação aos homens (11 horas semanais). A pesquisa ainda revela que essa dedicação, que deveria ser chamada apenas de trabalho não remunerado, só vem aumentando mais a sobrecarga das mulheres. De 2016 para 2019, essa diferença entre as médias masculina e feminina aumentou de 9,9 para 10,4 horas semanais.

“Estou tendo que me dividir em mil”, diz a advogada Liliane Barbosa, 35, de Fortaleza, outra capital que lidera casos de pandemia no Brasil. Retornando agora da licença-maternidade, ela e o marido tiveram de contratar uma babá, que, por sua vez, passou a dormir na casa da patroa, para evitar o uso do transporte público e assim não expor a irmã, grávida, com quem vive. O Ceará iniciou a retomada de alguns setores da economia nesta segunda-feira, e as escolas estão na quarta e última fase do plano, cuja data prevista para reabertura é a partir de 20 de julho. “Meu bebê iria para o berçário, mas mesmo que estivesse aberto eu não teria coragem de colocá-lo lá no meio de uma pandemia”, diz. “Esse retorno, que para mim foi precipitado, mexeu com a dinâmica de todo mundo”.

A arquiteta Fernanda* tem pensado em negociar com a empresa onde trabalha, no ramo da construção civil, para poder se dividir entre cuidar da filha, de dois anos, e seguir trabalhando. A creche onde a criança está matriculada não tem previsão de volta. Já seu trabalho nunca parou de fato. “Acompanho obra, então parte do meu trabalho é presencial, não tem jeito”, diz. “Até consigo não ir todos os dias para a obra, e às vezes também recorro à minha mãe para deixar a minha filha. Meu marido e eu estamos nos virando, mas vai ter dia em que minha mãe não vai poder ficar com ela e eu vou ter que trabalhar de casa, não vai ter jeito”.

Mas nem todas conseguirão negociar alguma flexibilização no trabalho. Por isso, em meio aos malabarismos maternos e às incertezas da retomada, o novo cenário econômico em todo o mundo criou um novo obstáculo para essas mulheres: o medo do desemprego. Nos Estados Unidos, o desemprego entre as mulheres atingiu patamares recordes e, em abril, foi o maior registrado desde 1948: escalou de 4% em março para 15,5% em abril. Entre os homens, saltou de 4% para 13%. Não à toa, C. Nicole Mason, chefe do Instituto de Pesquisa Política para Mulheres (IWPR, na sigla em inglês), que se dedica a pesquisas sobre políticas para mulheres nos EUA, inaugurou o termo shecession, misturando as palavras ela e recessão. Em português, recessão já é um substantivo feminino, uma vez que elas também respondem pela maior taxa de desemprego, independente da pandemia.

Em tempos de covid-19, não se sabe ainda se elas foram as mais afetadas. O Ministério da Economia, responsável pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) que mede a taxa de desemprego mês a mês, afirmou por meio da assessoria de imprensa que não realiza o recorte de gênero em seu levantamento. “Houve mudanças na metodologia e nem todas as fontes de coleta de dados possuem essa variável”, diz a nota. Portanto, não é possível saber quantas mulheres perderam seus empregos dentre os 1,1 milhão de postos de trabalho com carteira assinada fechados entre março e abril no país.

Cenário desfavorável

A economista Lúcia Garcia, pesquisadora da área de mercado de trabalho do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), explica que historicamente o cenário é desfavorável para as mulheres. “Elas estão sofrendo mais com o atual cenário seja porque os setores tradicionais de inserção [no mercado de trabalho] estão sendo ajustados e as condições de trabalho piorando, seja porque as famílias estão empobrecendo e as mulheres têm de entrar na busca da renda das famílias, seja porque estão perdendo dinheiro com os cortes de programas sociais”, explica a economista. A pandemia, portanto, agravou essa situação que vem se desenrolando há anos.

“Eu nem cogitei pedir para seguir em home office, tenho medo de eles me mandarem para a rua de vez”, afirma Ilka Adriane Ferreira, 38, técnica em edificações. No meio da pandemia, ela e a filha de oito anos se mudaram sozinhas de Itapevi para Osasco, ambas cidades da Grande São Paulo, mas a uma distância de mais de 20 quilômetros entre uma e outra. Com a suspensão das aulas, ela não conseguiu contato nem com a escola antiga de Itapevi e nem com a nova de Osasco, para fazer a transferência da garota, que está na 3ª série. “Fui na escola de Osasco e mandaram eu enviar uma mensagem para o Facebook do diretor. Eu nem tenho Facebook”, diz. “Enquanto isso, minha filha está totalmente sem aula”. A empresa onde Ilka trabalha prevê retomar as atividades no meio do mês e ela planeja pedir aos superiores um tempo para resolver a situação da escola da filha. “Nem que eu tenha que pedir para faltar”.

Maria*, compartilha do temor de Ilka, mas com um agravante: voltará, na semana que vem, da licença-maternidade. Funcionária de uma multinacional em São Paulo, ela explica que sua empresa nunca adotou o home office, embora sua função, na área administrativa, seja compatível com esse modelo de trabalho. “Minha função pode ser realizada de casa, assim como 80% do administrativo da empresa. Mas eles não liberaram ninguém, em momento algum, então não vou tentar negociar home office agora”, diz. “É natural que toda mulher tenha medo de perder emprego quando volta da licença-maternidade, ainda mais neste momento de pandemia”. Sem parentes próximos ou escolas abertas, a solução encontrada por ela e o marido foi desembolsar quase 3.000 mensais para uma babá cuidar da filha, de quatro meses.

Enquanto mães, solteiras ou não, quebram a cabeça em busca de uma solução para conciliar trabalho enquanto os filhos estão em casa, o poder público se diz atento ao assunto. “Outras preocupações já aparecem aqui na Prefeitura e a primeira delas é de que forma nós vamos ter uma reabertura dessas atividades sem prejudicar as mulheres”, afirmou o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), no dia 28 de maio, ao anunciar o plano de retomada da cidade em uma entrevista coletiva. “Porque as escolas, as creches, elas não serão reabertas. E de que forma nós vamos garantir de forma que não haja o desemprego da mulher trabalhadora, porque é sempre sobre a mulher que recai a obrigação de cuidar dos filhos”. Porém, nenhum plano específico foi anunciado até o momento para as mulheres.

Questionada, a assessoria de imprensa da Prefeitura e da Secretaria Municipal de Educação não responderam se há um plano específico para as trabalhadoras nessa retomada e nem qual a previsão da volta às aulas na rede municipal. Já o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), informou no início desta semana que um plano para a reabertura das escolas será apresentado nesta sexta-feira.

*nomes fictícios

El País