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Revolução Farroupilha: o povo gaúcho na luta contra a exploração e a tirania

Neste 20 de setembro relembramos os 186 anos do início de uma das maiores revoltas republicanas da história do Brasil. Muito mais que aspectos culturais e de costumes, a data traz consigo uma trajetória histórica marcada pela luta contra a exploração, contra a tirania e por liberdade.

O governo imperial brasileiro – autoritário e escravocrata – enfrentou por longos 10 anos (1835-1845) a rebeldia e inquietação do povo gaúcho. Isso porque centralizava o poder político e econômico para os interesses da aristocracia dos grandes produtores de café. Na época, a produção cafeeira era principal atividade econômica do país, extremamente dependente dos países estrangeiros e que se baseava na superexploração do trabalho através da escravidão.

Bem verdade que parte dos motivos para o conflito se deram pelos interesses dos estancieiros e das oligarquias rio-grandenses que se sentiam prejudicados pela carga fiscal na venda de charque e na atividade rural, falta de participação política e das instabilidades decorrentes dos conflitos de fronteira. Mas um dos principais motivos que fizeram o levante de 1835 ter o seu tamanho e importância foi a participação efetiva e a luta por liberdade do povo. Foram os negros escravizados ou quilombolas, indígenas, brancos pobres e o povo mais explorado em geral que trouxe consigo sua indignação e estiveram na linha de frente na revolução. Com ideário de liberdade e essencialmente progressista, foi o povo que mais lutou por dias melhores para si e para os seus.

Tem destaque na história farroupilha os Lanceiros Negros pela sua força, coragem e identidade. Eram formados na sua maioria por negros escravizados e quilombolas que buscavam na república rio-grandense o fim da escravidão. Foram classificados por Giuseppe Garibaldi, revolucionário italiano que participou ativamente da Guerra dos Farrapos junto a Anita Garibaldi, como “incomparáveis” onde detinham “inaudita coragem” a qual o conflito “abria as portas da cidadania política e civil”. Porém, nas lideranças farroupilhas havia uma divisão de interesses e opiniões: uma ala que também lutava contra a escravidão e outra, conservadora e traidora dos ideiais libertários, via nos Lanceiros Negros um mero instrumento de batalha.

Lamentavelmente, os Lanceiros Negros foram traídos e dizimados no Massacre de Porongos. Contrário ao pensamento de liberdade ampla a todos os gaúchos e gaúchas, o conservador David Canabarro articulou junto ao governo imperial uma verdadeira chacina aos regimentos dos Lanceiros Negros. Deu as coordenadas ao inimigo de onde estariam e desarmou todos os soldados, permitindo um alvo fácil ao exército governista. Mesmo sem armas, os Lanceiros lutaram bravamente e resistiram até perderem completamente suas forças. Joaquim Teixeira Nunes, o gavião, oficial branco e um dos líderes do comando farroupilha, não abandonou suas tropas e morreu em batalha. Um claro exemplo como o tema da escravidão na Revolução Farrouplilha é controverso e complexo.

Entendida devidamente no seu contexto histórico, a Revolução Farroupilha se constitui em um importante reflexo da luta por liberdade no país. Está interligada aos outros diversos levantes, conflitos e lutas de diferentes regiões do país, como na sabinada (1837) na Bahia, a cabanagem (1835) no Pará, Confederação do Equador (1824) em Pernambuco. A história dita oficial busca esconder ou impor uma visão reduzida aos “grandes heróis”, deixando de fora o papel do povo brasileiro na luta pelos seus interesses, já que um povo conhecedor da sua capacidade de luta e mudança de realidade é um perigo às elites e opressores.

Assim como naquele tempo, o povo gaúcho continuou a dar exemplo de luta por justiça e liberdade. Foi assim na Coluna Prestes, em 1924, na Campanha da Legalidade em 1921 e na resistência à ditadura civil-militar. Agora, mais uma vez nosso povo é convidado a estar firme na luta por democracia, direitos e pela soberania do país. Já demonstramos que governos de tiranos não são páreos a um povo de bravura e coragem, por isso seguiremos nessa trajetória e levantamos bem alto a bandeira de luta e esperança por dias melhores.

Fontes:

Revolução Farroupilha: A mais longa revolta republicana enfrentada pelo Império centralizador e escravocrata, Raul Carrion, ALERS, 2014.

História do Rio Grande do Sul, Sandra Jatahy Pesavento, 1980.

Breve História do RS, Fábio Kühn, 2004.